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Tio de alvo dos EUA sacou economias para cobrir despesa de esquema

Parente de Victor Shimada esqueceu US$ 7,7 mil e ofereceu R$ 13 mil do próprio bolso para cobrir parte da despesa de esquema bilionário

por Jackson Silva
7 de julho de 2026
Tio de alvo dos EUA sacou economias para cobrir despesa de esquema

Apontado como colaborador em um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, Amauri Henrique de Oliveira chegou a usar suas economias, reservadas para um tratamento dentário, para cobrir parte de US$ 7,7 mil (R$ 39.809) relacionados a um pagamento que deveria ser feito durante uma viagem de negócios. Amauri é tio materno do empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, alvo da Operação Exchange da Polícia Federal (PF) e um dos dois brasileiros sancionados pelo Departamento do Tesouro dos EUA.

O dinheiro pessoal, segundo as investigações da PF, foi usado para complementar uma entrega combinada pelo sobrinho. Na ocasião, Amauri transportava reais e dólares a mando de Shimada, mas percebeu, durante um dos deslocamentos, que havia deixado para trás parte do valor que deveria repassar ao destinatário.

Para evitar que a entrega fosse comprometida, Amauri passou a madrugada procurando caixas eletrônicos e casas lotéricas. Em uma mensagem enviada a Shimada, afirmou que poderia utilizar cerca de R$ 13 mil próprios. Parte dessa quantia, explicou, estava sendo economizada para “arrumar os dentes”.

O episódio consta na decisão da Justiça Federal que autorizou as prisões e buscas da Operação Exchange, deflagrada pela PF na sexta-feira (3/7).

Viagem com reais e dólares

As conversas analisadas pela PF indicam que a viagem ocorreu em 12 de maio de 2024. Na ocasião, Shimada teria ordenado ao tio que entregasse “tudo com todos os dólares” e abastecesse o veículo antes de seguir viagem.

Amauri respondeu que estava com R$ 23 mil e US$ 10 mil. Ele também encaminhou uma imagem do aplicativo de navegação que indicava um percurso de 340 quilômetros e atualizou o sobrinho durante o deslocamento em direção a Curitiba (PR) e, posteriormente, Florianópolis (SC).

Em determinado momento, porém, o tio de Shimada percebeu que não havia levado outros US$ 7,7 mil que também faziam parte da entrega.

Sem o valor completo, Amauri teria passado a buscar locais onde pudesse sacar dinheiro ao longo do trajeto. Ele informou ao sobrinho que possuía cerca de R$ 9 mil, além de aproximadamente R$ 4 mil que vinha guardando para o tratamento dentário.

“Tenho 9 k mais uns 4 k aqui, estava ajuntando [para] arrumar os dentes”, escreveu, de acordo com a transcrição reproduzida no documento obtido pelo Metrópoles. Shimada teria se comprometido a devolver o dinheiro usado pelo tio.

 

Dinheiro próprio para cobrir a diferença

A decisão não afirma que os R$ 13 mil substituiriam integralmente os US$ 7,7 mil esquecidos. As mensagens mostram que Amauri ofereceu os recursos próprios como parte da solução para cobrir a diferença e concluir a operação.

Shimada chegou a perguntar se o dinheiro estava depositado em uma conta ou se permanecia “vivo” com o tio. Segundo a interpretação da PF, “vivo” era o termo usado nas conversas para se referir a dinheiro em espécie.

Após realizar a entrega, Amauri enviou a mensagem: “Feitooooo”. Em seguida, encaminhou a fotografia de uma cédula de R$ 2 com uma anotação manuscrita que indicaria a data e os valores entregues.

Para os investigadores, a nota funcionava como uma espécie de recibo informal, utilizado para confirmar o repasse sem produzir comprovantes bancários ou documentos comerciais rastreáveis.

Tio materno e operador logístico

Amauri é irmão da mãe de Shimada e, portanto, tio materno do empresário. A PF afirma que ele não desempenhava uma função ocasional ou limitada a uma única viagem.

O investigado teria sido responsável por receber, contar, guardar e transportar dinheiro vivo a pedido do sobrinho. Em outra conversa, ele comunicou que havia recebido R$ 331 mil, mas que faltavam R$ 19 mil em relação ao valor combinado.

Segundo a decisão, o fato de Amauri se dispor a empregar recursos próprios, inclusive as economias reservadas ao tratamento dentário, demonstra seu comprometimento com a conclusão das operações atribuídas ao grupo.

Operação Exchange

A Operação Exchange investiga uma organização suspeita de lavar dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas. Segundo a PF, o grupo movimentava recursos por meio de operações bancárias de alto valor, criptoativos, repasses entre empresas e transporte de grandes quantias em espécie.

A Justiça Federal autorizou o bloqueio e o sequestro de até R$ 10,4 bilhões em bens, valores e criptoativos dos investigados e das empresas relacionadas ao caso, representando parte das movimentações financeiras analisadas.

Shimada, considerado o principal alvo da ação, não foi localizado durante o cumprimento dos mandados e permanecia foragido até a publicação desta reportagem. Ele foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos na quarta-feira (1º/7), dois dias antes da operação brasileira.

Alvo dos EUA

Fontes da PF afirmaram ao Metrópoles que a divulgação antecipada da fotografia e do nome de Shimada prejudicou a estratégia montada para localizá-lo. Os mandados já haviam sido autorizados, mas ainda não tinham sido cumpridos porque os investigadores tentavam descobrir o paradeiro exato do empresário.

O governo norte-americano atribui a Shimada atuação como elo financeiro de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). No Brasil, entretanto, o promotor Lincoln Gakiya, principal investigador da facção no Ministério Público de São Paulo (MPSP), afirmou que o órgão não possui informações que relacionem o empresário ou Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira ao PCC. Ela foi presa, durante a operação dessa sexta-feira, apontada como colaboradora do esquema.

Segundo Gakiya, eventuais provas reunidas pelas autoridades norte-americanas sobre essa suposta ligação ainda não haviam sido compartilhadas com o MPSP.

A defesa de Shimada afirmou que ainda não teve acesso integral às decisões e aos elementos da Operação Exchange. Em manifestação anterior, o empresário negou envolvimento com organização criminosa ou com a prática de lavagem de dinheiro.

As defesas de Amauri Henrique de Oliveira e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira não foram localizadas. O espaço segue aberto para manifestação.

Fonte: Metrópoles

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