Eles foram à luta. Caminharam pelas ruas, enfrentaram sol e chuva, pediram votos de porta em porta. Usaram sua voz, sua imagem e sua história para eleger o prefeito Rodrigo Damasceno em Tarauacá. Mas agora, pouco mais de uns meses depois da posse, esses mesmos vereadores que suaram para colocar o grupo no poder estão sendo deixados de lado, ignorados, tratados como invisíveis.
Nos bastidores, o clima é de decepção. No rosto de quem ajudou a construir a vitória, a expressão é de frustração.
“Nos prometeram que seria um governo coletivo, que teríamos espaço. Mas a verdade é que fomos usados e descartados”, diz, em tom amargo, um vereador da base aliada.
A traição política que se desenha em Tarauacá é clara: o grupo que hoje ocupa a prefeitura se fechou em torno de si mesmo, comandado por um círculo familiar que controla as decisões mais importantes da cidade. Enquanto isso, quem carregou a campanha nas costas assiste, de fora, às escolhas sendo feitas entre quatro paredes — ou melhor, entre quatro parentes.
“Não temos voz. Qualquer pedido, qualquer sugestão, qualquer tentativa de ajudar a gestão é ignorada. Já nem sabemos mais se somos base ou apenas figurantes”, lamenta outro parlamentar, visivelmente revoltado.
A grande pedra no sapato da base aliada tem nome e cargo: um assessor especial que, segundo os vereadores, manda mais do que o próprio prefeito. É ele quem bate o martelo. Nomeações, exonerações, liberações de recursos, contratações — nada acontece sem o seu aval. Vereadores relatam que não conseguem sequer encaminhar uma demanda simples para suas comunidades sem passar por esse filtro.
“É como se Tarauacá tivesse eleito um prefeito, mas quem sentou na cadeira foi outro”, dispara um dos parlamentares.
Recentemente, um episódio escancarou essa inversão de poder: o presidente da Câmara pediu formalmente a cessão de um servidor para ajudar nas atividades legislativas. A resposta? Um sonoro “não” — e não do prefeito, mas do assessor.
Nos corredores da Câmara, o que se vê é um grupo de vereadores prestes a explodir. Alguns já falam em rompimento. Outros, mais contidos, aguardam uma reviravolta — ou, no mínimo, uma postura mais respeitosa da gestão. Mas o recado é claro: o silêncio da base pode virar oposição a qualquer momento. E com a proximidade das eleições, a balança política pode mudar de lado — e rápido.
Quem anda pelas ruas de Tarauacá percebe: o povo está começando a enxergar o que está por trás da cortina. A pergunta é cada vez mais frequente: por que quem lutou pela vitória foi deixado para trás, enquanto parentes do poder ocupam os cargos e tomam as decisões? O sentimento de injustiça se espalha, e a confiança na gestão vai derretendo a cada novo episódio de desrespeito político.
A cidade tem memória. E mais cedo ou mais tarde, cobra a conta.
