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Brasil rejeitou tentativa dos EUA de politizar negociações sobre tarifaço

Documento apresentado por Washington tinha 21 pontos e incluía exigências relacionadas às eleições brasileiras de outubro

por Jackson Silva
18 de setembro de 2026
Brasil rejeitou tentativa dos EUA de politizar negociações sobre tarifaço

O governo brasileiro rejeitou a tentativa dos Estados Unidos de incluir questões políticas nas negociações para rever o tarifaço. Integrantes do governo consultados sob reserva pelo Metrópoles avaliam que a diplomacia brasileira agiu com êxito ao impedir que os temas avançassem nas tratativas.

Os Estados Unidos apresentaram um documento com 21 pontos ao governo brasileiro fazendo uma série de exigências para negociar o tarifaço aplicado contra o Brasil, entre elas que o governo permitisse a participação de “dissidentes políticos” nas eleições de outubro. O caso foi revelado pelo Estadão e confirmado pelo Metrópoles.

O pedido foi entendido como uma tentativa de interferência em questões internas do Brasil e não foi levado adiante pelo governo. O documento, conforme apurou a reportagem, foi entregue ao chanceler Mauro Vieira em outubro do ano passado, quando ele foi a Washington organizar o encontro entre Lula e Donald Trump na Malásia.

Na ocasião, Vieira comunicou a diplomacia norte-americana que o documento não seria levado adiante para discussões por entender que fugia do escopo central das tratativas sobre o tarifaço, que deveria se ater a temas comerciais e àqueles previstos na Seção 301, que justificou a política tarifária da Casa Branca.

Deixado de lado, membros da diplomacia brasileira afirmam que o tema não voltou a aparecer em discussões sobre o tarifaço. A avaliação é que o “recado foi entendido” e as negociações sobre as alíquotas contra o Brasil ganharam um tom mais técnico.


Tarifas contra o Brasil

  • Em cinco oportunidades, desde o início da nova gestão Trump, os Estados Unidos anunciaram tarifas contra o Brasil.
  • No chamado Dia da Liberação, Donald Trump anunciou taxas recíprocas de 10% contra o Brasil.
  • No dia 9 de julho de 2025, Trump anunciou mais 40% de taxas a produtos brasileiros — que se somaram aos 10% já aplicados, resultando em 50% de alíquota. A taxa foi justificada pela “caça às bruxas” contra Bolsonaro.
  • Em fevereiro de 2026, após a Suprema Corte derrubar o tarifaço de 50%, Trump anunciou uma alíquota global de 10% para todos os países, que ainda está em vigor.
  • Em 15 de julho deste ano, o USTR concluiu uma investigação comercial contra o Brasil e aplicou 25% de taxas ao país, que entraram em vigor no dia 22 de julho e atingiram uma série de produtos brasileiros.
  • No dia 23 de julho, a conclusão de uma nova investigação contra o país sobre trabalho forçado resultou em uma nova taxa de 12,5% contra produtos brasileiros.

Politização do tarifaço

O governo brasileiro vê tom político nas tarifas de Donald Trump contra o Brasil desde que as investigações comerciais foram abertas. A primeira pista foi dada ainda em julho de 2025, poucos meses antes de o documento com 21 exigências ser entregue a Mauro Vieira nos Estados Unidos.

Na ocasião, Donald Trump enviou uma carta ao Brasil alertando sobre a aplicação da taxa de 50% contra produtos brasileiros. Na época, o presidente dos Estados Unidos disse que o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), agora condenado por tentativa de golpe de Estado, não deveria acontecer por ser uma “caça às bruxas”.

Outro fator utilizado para corroborar tal percepção é baseado nas explicações utilizadas pelo USTR para justificar as taxas — o governo federal alega que nenhuma das explicações apresentadas pelos negociadores brasileiros para reverter as taxas foram levadas em consideração pelo órgão norte-americano durante o período de mais de um ano de negociação.

Após a aplicação das taxas, em julho deste ano, o governo brasileiro expressou por meio de posicionamento oficial a percepção de que a medida tinha “expressa motivação política”.

“Dissidentes” nas eleições

O governo de Donald Trump enviou documento ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exigindo que “dissidentes políticos” no Brasil não sejam presos, detidos ou impedidos de participar das Eleições 2026.

“O Brasil deve se comprometer a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não deve deter, prender, nem limitar arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral”, diz trecho do documento.

 

A avaliação do governo brasileiro é que, por “dissidentes políticos”, os EUA se referiam ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aos manifestantes dos atos 8 de Janeiro.

O tema foi discutido em nível técnico entre o Palácio Itamaraty e o Departamento de Estado e comunicado ao presidente Lula, que chegou a realizar uma reunião com alto escalação do Itamaraty e do Planalto para discutir o tema.

As exigências abordadas no documento, sobretudo as de tom político, foram escanteadas no processo de negociação das tarifas. Outros tópicos, como aqueles sobre minerais críticos, Pix e etanol, voltaram às reuniões bilaterais para negociar o tarifaço.

Os dois países, agora, reabriram a linha de negociações depois que Lula e Donald Trump se falaram por telefone no último mês. Na ocasião, os dois líderes concordaram em retomar os diálogos com o objetivo de encontrar uma saída para as tarifas norte-americanas contra produtos brasileiros.

No contexto dessa retomada, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e o Representante do Escritório do Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, devem se reunir no final deste mês para uma reunião presencial para tratar do tarifaço.

Fonte: Metrópoles

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